quarta-feira, julho 28

pavão misterioso

umas imagens
me chegaram ontem.
duas delas, mais foscas que a própria vontade
de ser.

de onde vieram, não me contaram.
mas espero que seus perfumes sejam verdadeiros,
mesmo que descompassados.

uma delas é vontade,
e a outra pode, pode ser paixão.
e elas vêm do fogo e cinza.
para me borrar mais a visão.
para anestesiar minha mente e saliva.

terça-feira, julho 27

minha cadeira de dois lugares

onde vão?
quão longe deixam
papos e pingas e flores?

não sei onde,
mas os vejo indo.
não concluo se isto é bom,
ou ruim.
mas vejo.

desejo, talvez,
ir junto.

mas por hora, fico sentado
na companhia do cigarro
e dos óculos escuros.
do pó e da ave.

quarta-feira, julho 21

floral haikai

cresce rápido,
o marrom, o verde,
e logo depois a flor, seguida do fruto.

terça-feira, julho 20

me dê novamente meus sentidos

saliente medo,
que afronta meus lençóis,
vá-te pra fora,
pro frio e lua.

deixe-me apaziguar meu tempo,
serenar minha sobriedade.
peço-te que vá.

corra no mar,
que mora em ti,
nos teus olhos fundos e altos.
que vagam pelas minhas costas e vida.
peço-te que vá.

vá para sertões mais distantes,
mais remotos de pensamentos e sorrisos.
peço-te que vá.

peça de um jogo
perdido por mim,
és tu.
és tu, medo oblíquo.
remete à tudo e todos à minha volta.
peço-te que vá.

peço-te que me deixe livre,
leve,
peço espaço para ver,
cor para sorrir,
e sabor para sentir,
peço-te, humilde, meu ser.

logo pela manhã meus olhos cinzas

por que tão cedo?
por que descolo meus vãos,
logo pelo primeiro fio de sol?

formam-se vielas em meus olhos,
todas cheias de solidez mental e vigor de criança.

nos vãos,
o ar sopra duro e reto,
nem uma curva de devaneio e digressão se forma
por entre os mil amores.

são três dias corridos do mês,
e já jogam concreto em olhos meus,
para que essas ruelas se formem,
tão cedo, tão cedo.

segunda-feira, julho 19

poema amor

salvo o olhar,
amar é como água.
um serene pecado
que dá a partida do conviver
muta-se em calor, no suor
quase que religioso.

é como respirar,
transpirar o coração
pelos poros e palavras.
sangrar segundos de conforto;

dar, à quem for, rosados lábios,
não temendo o após,
não sofrendo os males públicos,
é ser,
é ver mais de perto
o cheiro do macio,
livre e leve.

quarta-feira, julho 14

bússola

o norte
está apontando pra cá.
e creio que ser feliz,
é aqui.

grito óptico

derramo meus olhos ao chão.
talvez doa como vampiro,
mas dor que me vem por hora,
emerge risos e noites de verão.

noites compridas de serenatas,
afinadas à sua viola.

eles rodam e rodam
sugando tudo que encontram.
pelas pupilas e cílios
vão entrando calor,
flor e bocas.

até saliva seca,
de mórbida ressaca da agonia.
ah, a  mística ressaca da vínicola.
pai e mãe de manhãs infinitas.

entram outros olhos, talvez.
e desses saem medos traduzidos,
ilusões metamorfoseadas em azul ou verde.

azul que é a cor do céu,
mar, pano, pavão, maria,
olhos seus, meus,
cor da urbe, da tela,
do ser, do viver.

verde que é.
e sendo,
recolhe meus olhos e me dá.

[pelo menos, agora,
terei recheio neles.
estão em erupção de sons e sentidos,
eles gritam.]

sopre quente em todos os lugares

és vento,
agarrado em galhos cansados.
vento que corre vespertino,
que corre o mar azul sempre que dá.

que corre o mar infinito verdejante.
vento de todos gostos,

és vento,
um señor tão bonito,
a tônica de versos do inverno.
vivo como a cor que,
com pincel, pintou em suas flores,
livre, tal qual a onda do sol,
que te barra em dois ou mais poemas.

me imagino em forma
desses galhos,
galhos que agarram seu ar,
seu mar. seu pincel de veredas indecifráveis,
vielas nas quais enxergo pouco,
e mesmo sendo cego à estas pequeninas manchas de realidade,
me perco ébriamente em seu soprar,
ó, vento.

terça-feira, julho 13

onde se encontra?

onde estou no mundo,
que cores não me guiam?
onde estou no tempo,
quando o sal já me arranca a pele?

será que não mais terei a sorte de viver?
a chance de sentir o cheiro do azul,
ou até mesmo o calor do fogo?

quaisquer vontades são nulas,
onde terra não vive mais,
onde o canto desafina,
e versos se sentem presos,
pois não conseguem dançar.