sábado, outubro 10

Fogo Colorido

o cigarro cantou na minha boca,
cantou o que ele queria

queimou todos meus planos
queimou tudo que queria

cantava sobre os livros,
e sobre os rocks, cantava.

meu isqueiro não tinha mais um cheiro de fogo.
foi esquecido como meus planos.
e como estes foi trocado por outro.

só o desgraçado do cigarro continuava o mesmo.
queimando e bebendo minha vida.

ele me colocava em sua boca e ateava fogo.
mas não um foguinho qualquer,
um fogo enorme
com todas as cores que tinha direito.

as cores da minha vida,
que iam virando nuvens de fumaça,
pouco a pouco.

sexta-feira, outubro 9

1, 2,
1, 2, 3, 4.

Crocodilavam sem parar.
nenhuma alma deixava de lado.

sei lá se era bom ou ruim.
era de momento.
todo mundo estava afim
era mais que tormento.

Pararam de rimar
pra ficar mais divertido
mas ainda tinha ritmo
e vontade,
e coragem,
e amor.

Foram chamados de loucos,
mas, como não eram poucos
rebelaram.
anarquizaram.

Corriam escuros e rasgados pelos bares escuros.
tiveram prés, eles e pós.
hoje são esquecidos.

quinta-feira, outubro 8

50's

Uivaram o dia
Nasceram na folia

Falavam em progresso
Viraram sucesso
Morreram na agonia

Não tinham medo
Viviam em recesso

Colhiam do azedo
cultuavam o sexo

Comiam drogas
Comiam-se todas as horas

Pegavam a estrada
subiam as escadas
escadas da morfina
e heroína.

terça-feira, outubro 6

Cozinha

eu não sabia se escrevia, se lia, se cantava, se cozinhava.
Tinha um, dois livros.
três cebolas, uma partitura e um lápis sem ponta

perdia a conta,
toda vez perdia a conta

não sabia se era melhor o livro, ou as duas cebolas
ou a lapiseira, não sabia.

Liguei pra tia,
pra tia Maria.
Era cozinheira das boas.
escrevia, cozia, lia.

tudo estava prontinho,
só faltava um temperinho, um banquinho
e um tempinho.

tempo eu não tinha.
a tia minha, tinha.
tempo pra tudo,
pra ler, escrever, contar, cantar, comer.

ela mexia a colher
com a força de um homem, e a destreza de uma mulher.
cortava os ingredientes e jogava tudo na panela,

tudo estava prontinho.

mamãe dada

caligrafia maneirista
chumbo escrita

coliforme dentista
mandruvá jornalista

vermelho amarelado
limão salgado

lado do dado
número desafinado

teclado desconfigurado
índio sentado

canção atemporal
criança no vendaval

samba no carnaval
amor carnal.

segunda-feira, outubro 5

Medo

há um medo
um medo enorme

cruzo um só dedo
esperando que o medo se conforme

não sou sua vítima
não estou na sarjeta

coloquei todos os outros num trem
que vai pra longe, bem longe

estava me enchendo
eu não estava crescendo
estava ficando esquecido
eu não estava pronto

fugi pra bem longe, bem longe
mas pra outra direção

fui indo, até cansar
cansar de andar
e de ter medo.

quinta-feira, outubro 1

O cheiro

eu quase podia tocar
no  cheiro daquela melodia

atravessando a rua, rua cheia
moderna, cheia de sons e cores

fui seguindo só um.
um só, eu fui seguindo
e passando, e andando,
ouvindo, cheirando.

Quase atravessando a rua
virei.
olhei,
cheirei,
escutei,
pensei.

só naquele cheiro de música boa, pensei.
estava ali, bem atrás de mim.
sempre me seguindo,
e eu nunca conseguindo pegar.

segunda-feira, setembro 28

nós estávamos  rezando baixo
e de repente tudo parou

nós éramos ciclopes míopes
não entendíamos direito o que dizíamos 

um no outro,
olho no olho,
e daí nos confundíamos em digressões amorosas
depois voltávamos para a linha principal.

era tarde,
estávamos na sala.
na sala.

pedíamos desculpa
um pro outro,
olho no olho,
e daí petrificamos aquele momento,
lá na sala.

sexta-feira, setembro 25

Acordaaa!
Ouvi junto junto com a voz do Sinatra.
Achei que fosse apenas uma confusão,
mas era era meu encéfalo.
Que não estava mais aguentando, e decidiu falar.
Falou mesmo.
Sem dó.
O jazz que estava tocando parou,
e parou o som da rua, e o som dos copos,
parou.
Decidi ouvir meu cérebro por alguns tempos.
Daí acendi um cigarro e pedi um bourbon.

queimei meu dedo
e nas cinzas
voltei pro copo.Corpo.

Olhei pro fundo do copo,
e lá estava eu,
na mesa de bar.
vazio.

quinta-feira, setembro 24

saio da madeira
recheado de carbono

não importa quem é o dono
não sirvo pra besteira.
Pra cuspir as idéias

me perguntam tudo
qual a direção do mundo
a insanidade das matérias
ai falo, Eu mudo!

mas não mudo nada.
nada que interesse o povo
só algumas cabeças ímpares.