quinta-feira, julho 12

quando presto atenção
vejo o silêncio proseando,
suspirando baixinho
memórias agradáveis
na minha frente

e elas encostam
suavemente
como brisa
suave
no rosto
como se fosse posto
diante diante
de olhos apaixonados
que não conseguem
desviar o olhar

o vento chegou
trazendo boas novas
sem causar outras
ventanias
- somente bossas
sambas risos e boas intenções

e quando me deito,
onde for,
fecho os olhos
e eles saem voando
passando por memórias
lugares carnavais
frevos tangos
sombrinhas agradáveis

e vejo ao longe
- colorindo as ruas
e os ares -
rodopiando no compasso,
a infinita dançarina
a melemolente
e agradável menina.

segunda-feira, junho 18

labirinto

o chão;
casado com os pés
da moça
como se laços
lacrassem a paixão
pela terra e pelo movimento

a parede;
superfície confortável
pro verbo.
caminho que deixo
rastro que entorna
as cores perdidas
afim de alinha-las

um labirinto lúdico
afortunado pelas diversas
tonalidades e pela
gentil vontade de agradar
- um labirinto
que ecoa versos e notas
provocando a dança;
atiçando o íntimo

e nesse caminho
cores, tons e sinceridades
flutuam em um mar
ainda não descoberto,
mas que se abre pro novo
e deseja ser mergulhado

(a menina dança
sob o mar, gira nas ondas
e se apoia na maré
enquanto a água
sob seus pés
vai se colorindo de poesia)

domingo, junho 10

atirador

sou um atirador
com o olho na mira
que faz o olhar
queimar a roupa do alvo

esvaziando o tambor
acerto minha própria sombra
minha própria boca
e já não me importa

sou um atirador
e assim sou
pois não há lugar
e nem tempo
para ser alvo

acerto em cheio
o meio do espelho
dividindo meu próprio
feixe de luz
é a reordem
da desordem

me organizando
para poder desorganizar
com propriedade
minha própria e única
realidade

sexta-feira, maio 11

tem um pote
em cima do balcão
lá da varanda que não
tem mais banco
não tem mais
nem porta pra entrar
não podecomo faz?

tem o pote
que dentro dele
não cabe mais
rebarba não
pode mais
fica rosqueado
amarrado
na parede.

quinta-feira, maio 10

moldura

como faz de poucas palavras
e só vontade
um sentimento assim sereno
solene sereno bem calminho

nos dias quais
os ventos baixam por aqui
a lua azulada tece sorrisos
nos passos
e os traços compassam
os incertos palavreados

como faz
nesses dias dos quais
cianoretratos
se encontram pendurados
- como faz uma moldura
pro rosto;
pros novos desconhecedores?

terça-feira, maio 8

casa

há
um par

um lar
pra lá da estrada


não vá
negar

se a porta
te leva aberta
pro fundo do mar.

e também
está aberta a janela

pronta
pra
alguém pular.

vai sem medo

evapora coração
domina o espaço
que lhe é dado
que não há motivos
para não.

para não,
sentimento gordo!
se coloca no lugar
do fogo pra se ajudar.

e depois de evaporado
vai indo com o vento
que ele carrega com aptidão
e te trás de volta na hora certa
com a caça.

não se importe em ir
que sempre chove
e você me molha
e carrega meu corpo
com seu cheiro e cor de novo.

um tempo

um momento
pro desatento
muleque
que nem sabia direito
como era a vida que vivia

um momento
pro desemprego da preguiça
pra morte do desajeito

um momento pra mim
e pra todos nós.
pois sou todos
e cada um desses
tem eu no seu meio.

um momento
confortante
um momento ser humano.

um muleque desatento
escrevendo ao vento
o tempo que quer.

com traste

luzes (ou não)
olhos
e ação!

reajuste do
peito diante dos seres
inanimados ou serelepes humanos

rebuliço instantâneo
capaz de naturalmente
organizar e escolher o momento
exato e as poses
que cabem no mundo que vejo

terça-feira, abril 24

poema de perdão

como será que faz
pra não ter medo do que foi feito
como que faz isso
se já está concreto na memória
aqui, ai e lá

como posso imaginar o pior
será que devo imaginar a calma?

justo na hora
que a irmandade é descoberta
na hora que o calor da alma ferve
as gargalhadas.

como faz pra pedir perdão
por algo que, mesmo que natural e belo,
machucou a sutil gentileza de olhar nos olhos?

questiono o vento
por que é torturante, agora,
fazer uma ferida, do tamanho que seja,
no peito de alguém grandioso
calmamente gracioso!