domingo, maio 23

pinte sua cara de azul

confundo-me agora
com sentimentos tropeçantes
que vieram molhados de longe,
comendo tudo e me amamentando
com o calor e a cor azul
que masturbam meus olhos sombras
chorando na calçada com um ou dois amigos,
rindo e me estupefando com alegria,
que tropeçam na minha cara gorda
pisando e amassando minhas idéias
malditas e sem escrupulos
que me fazem ter medo
muito medo.

eles renascem, no simbolismo de hoje
não tente me matar, por favor, Verlaine!!
escuro da gente
longe, na chuva e fumaça, e cela.
agasalhada de verde.
corra, coelho, corra.
pro chapeleiro.
isso me conforta

temo nós dois
um pouco distantes
mutantes de nós mesmos.

terça-feira, maio 18

pro recheio

                I

estamos aqui e acolá
o lenço na cabeça e as palavras
com o cigarro pendente no lábio
quase flutuante, devido a energia
proviniente do corpo

presos pela manhã
na cadeira de madeira
um aqui e outro acolá
discutindo Rimbaud,
no romance, perdido nas folhas
e na sutileza da beleza de uma música cigana

a fome que nos dá
e a vontade de sair daqui
e ficar ai
com a poetisa da vida,
encenando no setembro
a sua peça vital,
onde a platéia terá presente meus versos
encrustados na alma dos bancos

            II
queríamos só liberdade,
queremos poder respirar,
na nossa arte...
que foge nalguns livros e películas
fervendo em nossas mãos
na ponta dos deods de piano,
entrelaçados no seu esilo
cozendo versos livres
na eminência de ser você.

desejamos um lugar
livre e de fulgaz espontaniedade
música boa e grande energia,
petrificado na paixão com a qual me conta
sobre o galpão sujo e com tapetes e sofás

          III

não canse de minhas palavras.
em ano próximo
a poesia dos mortos voltará,
e poderemos (tentar) mudar o mundo

o poeta bebado
e os cílios grudadinhos, igual tempos atrás.

segunda-feira, maio 17

haicai

espero,
lá,
você, toda linda.

pano azul

escolho bem essa próxima canção
com medo da arma
saltando, com o pano azul na cabeça,
do trem garoante.

acende o cigarro
e o fogo ilumina,
na escuridão da cidade grande,
seu queixo e brilha nos olhos
só ouço o queimar.
estonteado.

sinto sorriso e fumaça vindo na minha direção
mas por frações, somente,
e some par'o lado
no vermelho do vinho.

o balão lhe chama.
chama a chama para cama
da culturariedade do fogo frio
e leva pro teatro cheio o olho brilhante

escolho bem,
mas espero aqui.

garoa

meu olho está doendo
de tão bonito.

entrou isso nos ouvidos
daqueles óleos pincelados
seculares, brotando das paredes da luz.

disse a beleza em pessoa,
julgando a legitimidade dos bandolins
com a sobancelha franzidamente levantada.
desconfiada,
falando do pandeiro,
do cachecol alheio.

passa pelo piano e me pede por música,
arranho o disco daquela estação, um pouco.
descrevo as notas
e logo após o alto de óculos solta o sorriso
em escala menor.

no outro caminho vemos seu clone dançante
rodopiando com movimentos mesmos.
leve igual.

me separo, para meu outro sonho.
uma cantoria magnífica.
cantante pelo ar,
no pé das cuspidas pesoas deslizando pelo céu

sinto o desejo quando a vejo novamente.

terça-feira, maio 11

pinheiro

atravessei [de novo]
a rua para apanhar aquele som,
nua e cansada.
tonta com as faixas do chão
colhendo nos pés o sangue.
estava longe e cego
e o vermelho circundava o duro da boca, tímido.
andava trocando passos por piscadas
entre a cegueira.
alcançava, quase que hermeticamente
notas giratórias que fluiam os membros
espacarticamente doídos.
meus sentidos ficavam entre as duas calçadas
e no cume da minha dança
estaria sem mais nenhum,
fingindo o sorriso,
que acabara no tesão dos giros e pontas de pé.

o som me espera, como sempre
quebrando vidas com seu volume
trezentos e dez decibéis de vontade e amor pulsante
na feição das nove comas de distância.

eu carrossel, e
ele exalando cheiros diminutos,
agudos.
carente da surdez
na iminência dos passos,
na pertinência da distância.

polução

era tarde cinza e densa
comia meus sorrisos brutalmente
e diminuia a zero o volume do som
triturava meu irritante cabelo
e machucava.

não mais,
é azul e leve.
pisa em qualquer fogo que vê
e os que não se apagam,
os toma pra si como antigos amigos.

cola meu olho novamente
animal negramente sedento
frente à um rio vermelho e inchado de água pura
quase cospindo fora seus benéficos

quero meus melhores
peco e ando torto e obliquo,
mas entre minhas tranças musculares e tropeços
estão eles.
é só desenrolar que fácil acho.

é minha cama, quando acordo
enrugada e fina, espalhada pela madeira carunchada
cobertor grosso da goza do saber.

eu acredito em dedos

abri minha bolsa
e tirei de suas entranhas o suor amargo
a bolsa, sujamente mordeu minha mão e deixo nos seus anais
meu azedos dedos.
''VAMOS, RASTEJEM ATÉ A BORDA
ESCALEM SUAVEMENTE O NEGRO DA DOR''
alguns caem e me doem.

por não poder mais segurá-la,
a bolsa gorda e suada roda pela terra
e aos poucos me dói mais, no interno.
derruba meus ícones:
faz um laço com sua alça alucida.
os pontos da costura vão se soltando pelo caminho
e vão dando suas mãozinhas para meus dedos.
custando para me achar.

pensamentos pós-agora

havia um medo
medo bem grande
agora torcido pelo tempo.

sento no chão duro
em cima do medo enorme
sorrio pra cima
e deixo escorrer o sorriso
que infesta e repete o começo.
mas desta vez fica até o fim
sim, gruda no nosso olho
(um olho só, pro par todo)

escondo eu
sob a cama
retorcida e insistente.
implica e replica a volta de terceiros
pede, me enforcando o olho,
por suor e sono
cinema e risada
pede que eu dançe novamente.
aguarde por novos textos.
em breve.